3 de março de 2011

Participantes ou Alienados

Sem querer ter uma visão “fatalista” ou “pessimista” do mundo, a verdade é que o mesmo se debate com problemas que desafiam  a capacidade humana de apontar decisões. Nos últimos 10 anos, a fome fez mais vítimas do que todas as guerras da História. “Experts” em política e economia contemporânea dizem que “as mais perigosas tensões mundiais de hoje não são políticas, mas económicas”.

Até 1990 as estatísticas mundiais diziam que, em cada 60 segundos nasciam cerca de 200 seres humanos e cerca de metade morriam antes do primeiro ano de vida. Dos que sobreviviam, aproximadamente a metade, não ultrapassaria  os dezoito anos, e os sobreviventes teriam uma expectativa de vida de trinta anos e na maior parte das suas vidas, sentiriam fome, cansaço e estariam doentes.

Conforme o Fundo das Nações Unidas para a População, uma mesma geração viu a população dobrar dos 3 bilhões, nos anos 60, para os 6 bilhões, em fins da década de 90. Este fenómeno, no entanto, não deverá mais ocorrer, por conta da diminuição das taxas de crescimento populacional, a partir da década de 70. Em 1968 estava previsto que a população mundial atingiria os 12 bilhões em 2050, mas com esta redução drástica da natalidade verificada nos últimos anos, prevê-se que atinja somente os 9 bilhões.

Posição e Indicações Humanas dos Problemas

Demógrafos, economistas, técnicos em meio-ambiente e outros que estudam os problemas populacionais, procuram encontrar razões para a diminuição da natalidade e estão hoje preocupados com o envelhecimento da população mundial. De momento, quase dois terços da mesma estão subalimentados o que forçosamente obriga a dispor do dobro da produção actual de alimentos, somente para continuar a alimentar esses dois terços. Aqui reside o problema de cálculos e perspectivas: apenas alguns peritos acreditam que a reserva do mundo em alimentos, possa ser duplicado nesse espaço de tempo. O que podemos afirmar é que (e estamos apenas constatando factos) a fome deverá aumentar, a não ser que se reduza o crescimento da população.

A questão é muito delicada e envolve certos aspectos morais que escapam à acção da ciência, mas já há países que têm leis especiais para o controlo da natalidade, como é o caso da Índia e o caso mais interessante de Singapura que dá como prémio a dispensa de imposto (I.R.S.) e proporciona toda a assistência de saúde aos casais que possuam apenas dois filhos, cobrando tudo a dobrar para quem contraria essa decisão estatal.

Quanto à carência da produção de alimentos, este problema está intimamente ligado a factores técnicos, educacionais, sociais e morais.

Tecnicamente

São poucas as nações que possuem agricultura mecanizada e outros meios desenvolvidos de produção de alimentos. A maioria delas conserva sistemas antiquados e empíricos processos de agricultura, pecuária e industrialização de alimentos. Para conseguir algum progresso, dependem da ajuda de nações ricas e isto custa-lhes caro...

Educacionalmente

A falta de técnicos motiva a deficiência da produção e esses técnicos necessitam de escolas de formação profissional. Além disso, a educação é que gera a mentalidade mais arejada para a aceitação de certas mudanças e atitudes concernentes  ao planeamento familiar – como fazer dentro dos padrões da Palavra de Deus, resguardando o respeito pela vida humana. Textos de Génesis como “crescei e multiplicai-vos” devem ser estudados de forma responsável e numa visão da situação do homem hoje. Não podemos negar ou deixar de reconhecer o problema da densidade demográfica e a dificuldade que muitos enfrentam para sobreviver com uma família numerosa.

Socialmente

Aqui o problema agrava-se devido a várias circunstâncias, tais como: a má distribuição ou uso de terras, a influência do poder económico que conta com o apoio e interesses financeiros dos governos quase sempre deliberando a favor dos mais abastados, a falta de planeamento para a lavoura, a pecuária e outros meios de produção de alimentos, o desprezo pelas classes trabalhadoras, particularmente do homem do campo, e a falta de visão dos dirigentes para as reais necessidades do povo, especialmente nos sectores educacional, trabalhista (salários de fome e aumento do desemprego) e previdenciário.

Moralmente

Se houvesse maior sentimento de justiça e amor – especialmente entre os que detêm o poder, as terras e o dinheiro – não haveria os desníveis tão elevados que se verificam, o abandono dos campos, os desempregos, a pobreza e a ignorância. Muita terra torna-se improdutiva porque não é cultivada, pois os seus proprietários não o fazem nem permitem que alguém o faça. O trabalhador, em muitos casos, é mal pago e assim não conta com recursos para se alimentar a si e à sua família. Muitos ficam sem instrução por falta de meios para a conseguir e assim ficam presos num ciclo vicioso, agravando-se o problema da fome. E aí  vem a correria para as grandes cidades, o que origina outras situações de difícil solução.

A Teologia da Fome

Como cristãos participantes será que devemos dizer alguma coisa ou ficar calados com aquilo que vemos de “injustiça” à nossa volta? Será que devemos questionar a teologia tradicional que afirma que não temos nada com os problemas materiais do homem e a única coisa que a igreja deve fazer é pregar o Evangelho e deixar que o governo cuide sozinho dos problemas materiais, da comida, de superpopulação, da ecologia? Até onde o estômago vazio de uma criatura atrapalha para que ela receba a mensagem do Evangelho? Ou será que isso não tem importância?

Ainda que não se deva discutir  quem está na “direita” ou na “esquerda” pois não é esse o nosso objectivo, parece que muitos teólogos dos nossos dias são adeptos da teologia de Hitler que dizia, na Alemanha nazista, para a igreja estatal: “Cuidem do céu que a terra é aqui comigo” – escapismo, omissão, frouxidão para atender aos desafios do presente.

Finalmente, parece-nos que os adeptos da tradição teológica preferem manter o status-quo, que cria menos problemas. Lembramos aqui que grandes igrejas ditas evangélicas na Alemanha nazista ajudaram em muito o nazismo na subida ao poder.

A Realidade e a Solução Cristã

Sei que não podemos resolver todos os problemas materiais da humanidade, não só por sua complexidade, como por não ser esta a missão prioritária da Igreja Cristã. Contudo, podemos contribuir com enorme parcela para alcançar a necessária solução. Como? Entregando a mensagem profética, condenando os males que geram as grandes diferenças sociais e a pobreza quando for necessário e ensinando ao mundo e aos crentes que todos temos responsabilidades na solução deste grave problema.
            
O cristão reconhece que o homem é constituído por espírito, alma e corpo e, por isso mesmo, todas as suas necessidades nestas áreas devem ser atendidas igualmente. Em muitas das suas acções sociais, Jesus Cristo foi directamente ao problema social-humano antes de ir ao espiritual – está claro em todos os evangelhos. Parece-nos estranho isso, mas foi o que aconteceu realmente com o paralítico, no tanque de Betesda, os leprosos do caminho e em muitas outras oportunidades.
            
O cristão reconhece ainda que é dever claro e inescusável de cada um colaborar para que se preste atenção às necessidades reais das pessoas, segundo a ordem de Jesus quando disse: “Dai-lhes vós de comer” (Marcos 6:37). Nesse passo das Escrituras, os discípulos sugeriram mandar a multidão embora, quando ela mais necessitava de ajuda. Pensemos: Não fazem assim os que dizem que a tarefa da Igreja é só pregar o Evangelho deixando que o governo supra as necessidades materiais dos pobres?
            
O cristão reconhece que, se foi Deus que em seu acto criador colocou no organismo humano essas necessidades e deu direito ao homem de usar do produto da terra e dos animais para sua alimentação, também foi Ele que garantiu o direito a todos os homens indistintamente de terem os meios para suprimento das suas reais necessidades.
            
Nos textos de Oséias, Habacuque, Amós e Apocalipse estão relatadas as acções proféticas de condenação para os que perseguiam os pobres, exploravam os miseráveis da terra e destruíam a natureza. Deus não muda – Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:8).

Finalmente, se a igreja à qual pertencemos não é uma agência de emprego, pode, entre outras coisas:

1.     Ajudar “analfabetos” dando-lhes ensino gratuito ou de fácil acesso financeiro.
2.     Ajudar a amparar as famílias realmente necessitadas dentro do seu ambiente e nas suas possibilidades.
3.     Favorecer a educação em todos os níveis dos menos capazes financeiramente, dentro de um programa de auto-ajuda, utilizando os mais abastados na igreja.
4.     Estimular os que possuem recursos financeiros para um programa possível de acção comunitária, aplicando seus recursos com os necessitados.

Nós podemos:

1.     Evitar gastos supérfluos aplicando essa economia para ajudar o programa social da igreja a que pertencemos.
2.     Colaborar com o nosso trabalho em cursos, artesanato, escola (com prioridade para estudantes do ensino secundário e universitário), apoio e orientação aos que necessitam.
3.     Envolvermo-nos na acção social da igreja e sugerir aos nossos pastores actividades. Nós podemos.

Conclusão
            
Efésios 2:10 diz: “Somos feitura d’Ele, criados para as boas obras que Ele preparou para que andássemos nelas”.
            
Tiago 2:14 diz: “A fé sem obras é morta.”

 O que estou eu a fazer? O que está a minha igreja a fazer? Como reagir diante desses desafios?

         

5 comentários:

  1. Parabens por esta reflexão! Gostei muito das soluções. Continue, porque é bom ler e reflectir sobre estes aspectos tão importantes. Deus o abençoe, hoje e sempre.

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  2. é CICLO vicioso e não círculo! circulo vicioso não existe.

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  3. Força João, estamos aqui para o apoiar. Gosto de pessoas com iniciativas.Melhor é fazer alguma coisa, do que nada.

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  4. Obrigado pela correcção de "círculo" para "ciclo". Distracções!

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  5. Past. João este texto é muito rico ! (apoio e orientação aos que necessitam).Um abraço Past. Alda

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