3 de janeiro de 2011

Liderança Hoje - Nº 5 (Janeiro 2011)

SECÇÃO 2
CORAGEM
CORAGEM ESTABELECE  LIDERANÇA


EM PRIMEIRO LUGAR
“Apenas os líderes que agem com coragem em tempos de crise e mudança 
são seguidos voluntariamente”. (Jim Kouzes)

     Os líderes amam o progresso. É o progresso que os faz voltar ao trabalho. Não há nada mais desencorajante para um líder do que a probalidade de ficar encalhado num ambiente onde o progresso é impossível. Se não podemos fazer as coisas avançarem, é altura de mudarmos.
     O progresso requer mudança. Para uma organização, ministério, negócio ou relacionamento fazerem progressos têm que mudar. Isto é, ao longo do tempo devem evoluir para outra coisa diferente. Deve tornar-se melhor, mais relevante, mais disciplinada, mais alinhada, mais estratégica.
     Mas as organizações, tal como as pessoas, resistem a mudanças. Os autores de The Leadership Challenge mencionam: “Os líderes devem desafiar o processo precisamente porque qualquer sistema irá conspirar inconscientemente para manter o status-quo e evitar a mudança.” As organizações procuram um equilíbrio. As pessoas das organizações procuram estabilidade. Ambos podem ser impedimentos para o progresso porque este requer mudança e a mudança é vista como uma antítese da estabilidade.
     Tenha em mente que tudo aquilo que detesta sobre o seu ambiente ou organização, actuais, foram originalmente a boa ideia de alguém. Na altura até pode ter sido considerada revolucionária. Sugerir mudanças é sugerir que os seus antecessores têm falta de visão. Ou pior, que o seu supervisor actual não compreende! Consequentemente, é mais fácil deixar as coisas como estão; aceitar o status-quo e aprender a viver com isso.
     Embora isso possa parecer mais fácil, não é uma opção para um líder. Aceitar o status-quo é equivalente a uma sentença de morte. Onde não há progresso não há crescimento. Se não há crescimento não há vida. Ambientes vazios de mudança são eventualmente vazios de vida. Então os líderes encontram-se a si mesmos na precária e arriscada posição de serem os únicos a chamar a atenção para a necessidade de mudança. Consequentemente, a coragem é uma qualidade não negociável para a próxima geração de líderes.
     O desafio dos líderes é por causa do que poderia e o que deveria ser. Esse é o trabalho do líder. Mas desafiar aquilo que sempre foi assim e aquilo que sempre funcionou antes requer coragem. Reconhecer simplesmente a necessidade para a mudança não define liderança. O líder é aquele que tem a coragem de agir sobre aquilo que vê.
     Em todas as igrejas, negócios ou organizações sem fins lucrativos com necessidade de mudança, existe um grupo de trabalhadores que estão perfeitamente conscientes das transformações que precisam acontecer. Eles vão para casa todas as noites e queixam-se aos seus cônjuges. Mas dia após dia fazem o seu trabalho resignados com a noção de que nada irá mudar. Estão convencidos que tentar introduzir qualquer mudança será um dispendioso – e potencialmente difícil – gasto de tempo. Então mantêm as suas bocas fechadas e olham para o relógio. Eles não têm falta de visão daquilo que precisa acontecer; simplesmente têm falta de coragem para fazer qualquer coisa sobre isso.
     Um líder é alguém que tem coragem de dizer publicamente aquilo que todos os outros sussurram em privado. Não é a sua visão que separa o líder da multidão. É a sua coragem para agir sobre aquilo que vê, para falar quando todos os outros estão em silêncio. A próxima geração de líderes são aqueles que preferem desafiar o que precisa ser feito e pagar o preço em vez de ficar em silêncio e morrer por dentro.
     Tal como iremos ver no próximo artigo, o simples falar tem o potencial de transformar um indivíduo que é um mero ornamento organizacional num influenciador – um líder.
     A coragem é essencial na liderança porque a primeira pessoa a dar um passo numa nova direcção é visto como um líder. E ser o primeiro a dar o passo requer coragem. Deste modo, a coragem estabelece a liderança.
     Vimos este princípio em operação quando éramos crianças. Lembram-se de estarem com os vossos amigos a desafiarem-se uns aos outros para fazer qualquer coisa? Depois, de repente, alguém foi primeiro e todos o seguiram. A pessoa que vai primeiro é geralmente vista como um líder. A coragem para agir define o líder, e por sua vez a iniciativa do líder dá aos que estão à sua volta coragem para o seguirem.
     Há algumas dúvidas sobre quem teve primeiro a ideia de colocar um computador em cada secretária. Mas não há dúvida nenhuma sobre quem durante anos foi o líder da indústria dos computadores pessoais. Os trabalhadores da IBM foram os primeiros a arriscar os recursos necessários para implementar para sempre uma ideia de mudança na indústria informática.
     Para além da necessidade de desafiar o que deve ser mudado, foi dado aos líderes a tarefa de levar as pessoas até lugares onde elas nunca estiveram.
     Os líderes providenciam uma imagem mental de um futuro desejável e depois pedem às pessoas para os seguirem. Os líderes requerem aos que os rodeiam para abandonarem o que conhecem para abraçarem o desconhecido – sem qualquer garantia de sucesso. Como líderes, não apenas pedimos a homens e mulheres que nos sigam até um lugar onde nunca estiveram antes; nós pedimos-lhes que nos sigam até um lugar onde nós também nunca estivemos antes. Isso requer valentia. Isso requer cabeça fria. Isso requer coragem.
     Todos nós conhecemos o medo de entrar num quarto escuro ou atravessar um caminho não iluminado. Liderar em direcção ao futuro evoca muitos destes mesmos sentimentos. A liderança requer a coragem de caminhar na escuridão. A escuridão é a incerteza que sempre acompanha a mudança. O mistério se um novo empreendimento irá ou não funcionar. A reserva que todos sentimos inicialmente quando uma nova ideia é introduzida. O risco de estar errado.
     Quando as minhas filhas fugiam da escuridão dos seus quartos ou da cave, era rápido a lembrar-lhes que apesar de terem medo, elas não estavam em perigo. E embora isso fosse verdade, nunca ajudou. O medo desafia a lógica. A informação só vai até um certo ponto. Mesmo quando estamos armados com todas as razões pelas quais não devemos ter medo, o medo permanece.
     Por esta razão, é a escuridão que providencia ao líder as suas maiores oportunidades. É a sua resposta à escuridão que determina em larga escala se será ou não chamado para liderar. Porque é a escuridão que mantém a pessoa comum de dar um passo para fora da zona de segurança daquilo que sempre foi costume.
     No entanto, muitos dos que têm falta de coragem de avançarem sozinhos anseiam por alguém que dê o primeiro passo, que vá primeiro, que mostre o caminho. Pode-se defender que a escuridão providencia um óptimo contexto para a liderança. Apesar de tudo, se o caminho para o futuro fosse bem iluminado, estaria congestionado.
     Os líderes nem sempre são os primeiros a ver uma oportunidade. Simplesmente, são os primeiros a aproveitar uma oportunidade. É a pessoa que aproveita a oportunidade que sobressai como um líder. Mas o medo tem mantido muitos eventuais líderes de lado, enquanto boas oportunidades desfilavam. Eles não tinham falta de visão. Tinham falta de coragem.
     Pense por um momento sobre algumas das experiências da vida que não teria tido se se tivesse rendido ao medo. Provavelmente, nunca teria aprendido a nadar ou a andar de bicicleta. Nunca teria convidado ninguém para sair. Muitos de nós, homens, nunca nos teríamos casado. Teríamos cancelado todas nossas as entrevistas de emprego. Muitos de nós não teríamos carta de condução. O medo desenfreado resulta em oportunidades perdidas.
     Esta é uma lição que tenho repetidamente ensinado às minhas filhas e às pessoas com quem lido diáriamente ou chegam a mim para aconselhamento: “Se não conquistarem o medo, nunca terão algumas das grandes coisas da vida.”
     Encontro-me frequentemente a forçá-las a tentarem coisas que não tentariam sozinhas. Depois, sentamo-nos e falamos sobre a dinâmica daquilo que aconteceu. Na maioria dos casos, todos descobrem que coisas que começaram com muito medo, acabaram por ser muito divertidas.
     Já fizemos isto tantas vezes que alguns deles agora olham para mim e dizem: “Esta é uma daquelas coisas em que ficaremos felizes por ter feito depois de acabarmos?”
     “Fazê-lo seja como for” é realmente a única maneira para assegurar que o medo não lhe rouba uma oportunidade. “Fazê-lo seja como for” é a essência da coragem. A coragem é a vontade de nos movermos numa direcção apesar das emoções e pensamentos que nos impelem a fazer outra coisa.
     A coragem não é a ausência do medo. A coragem assume o medo. Se ficássemos à espera que o medo diminuísse antes de andarmos de avião ou outra coisa que receamos, ainda estaríamos à espera. Apenas o fizemos. A coragem é a vontade de agarrar o seu medo e avançar.
     O líder que se recusa a mover até o medo ter desaparecido nunca se irá mover. Conse-quentemente, nunca irá liderar. Há sempre uma incerteza relacionada com o futuro. A incerteza pressupõe riscos. A liderança é sobre movermo-nos ousadamente em direcção ao futuro apesar da incerteza e do risco. Sem coragem iremos simplesmente acumular uma série de boas ideias e lamentações. O que poderia ou seria não será… pelo menos para nós. Eventualmente, outra pessoa virá e agarrará a oportunidade que nós deixámos passar.
     Pergunte aos líderes veteranos sobre a sua tolerância ao risco e eles irão dizer-lhe qualquer coisa como: “Desejava ter arriscado mais”. Por outras palavras, desejavam não ter permitido que o medo do desconhecido tivesse refreado as suas aspirações. Max De Pree fez esta observação: “A falta de vontade de aceitar o risco tem bloqueado mais líderes do qualquer outra coisa que eu possa pensar.”
     Os líderes maduros raramente lamentam terem arriscado. Até os riscos que não compensaram directamente são vistos como uma parte da viagem necessária. As lamentações dum líder andam realmente à volta das oportunidades que não teriam perdido se tivessem ultrapassado o seu medo e abraçado o que poderia ser. Normalmente é o medo, não a falta de boas ideias, aquilo que mantém um homem ou uma mulher parados à margem.
     O medo de falhar é comum ao homem. Mas os líderes vêm o falhanço de maneira diferente. Consequentemente, eles não temem o falhanço da mesma maneira que um indivíduo normal.
     Aqui está a diferença: Eventualmente, o desejo de progresso dum líder irá sobrepor-se à sua relutância em arriscar. Por outras palavras, o fracasso em mover as coisas para a frente é o tipo de fracasso mais temido pelo líder. Porque para o líder, o fracasso é definido em termos das oportunidades perdidas em vez dos empreendimentos falhados.
     O fracasso de qualquer empreendimento em particular é algo com o qual um líder consegue viver. Até rir-se disso. Um empreendimento gorado é simplesmente uma lição sobre as coisas a não repetir. Os líderes conseguem viver muito melhor com as probalidades que tentaram e falharam do que com o que nem sequer tentaram. Os líderes temem mais a oportunidade perdida do que o medo dum empreendimento gorado.
     O fracasso é parte do sucesso. Os líderes mais maduros vêem o fracasso simplesmente como um capítulo necessário na sua história: lições aprendidas, lições que são essenciais para o sucesso futuro. Os líderes sabem que o fracasso se parece e sente-se completamente diferente no espelho retrovisor, do que quando olha fixamente para nós através do pára-brisas.
     Pergunte a um líder como é que venceu o seu medo de falhar, e provavelmente ele não lhe dará nenhuma boa resposta. Porquê? Porque ele nunca pensou nisso. Então, para os homens comuns, os líderes parecem destemidos. A verdade é que os líderes não temem o mesmo que os outros homens.
     Os líderes sabem que a melhor maneira de assegurar o futuro é arriscar. Enquanto que o homem ou mulher comuns têm medo de dar um passo na direcção duma nova oportunidade, o líder tem medo de perder uma nova oportunidade. Ser demasiado cuidadoso leva ao fracasso porque a precaução pode levar a oportunidades perdidas.
     Tom Watson Sr., fundador da IBM, compreendeu este princípio. Um executivo junior da companhia conseguiu perder mais de 10 milhões de dólares numa aventura que foi considerada arriscada até pelos outros trabalhadores. Quando Watson soube deste desastre, chamou o homem ao seu escritório. Depois de entrar, o homem deixou escapar: “Creio que quer a minha resignação?” Alegadamente, Watson respondeu-lhe: “Deve estar a brincar. Acabei de gastar 10 milhões de dólares a educá-lo.”
     Não consegue liderar sem arriscar. Não irá arriscar sem coragem. A coragem é essencial para a liderança.

2 comentários:

  1. a frase q me chamou mais a atenção "...a primeira pessoa a dar um passo numa nova direcção é visto como um líder."

    enquanto lia o texto, e o pastor falava das suas filhas, lembrei-me que estou a ficar com medo de andar de avião mas o curioso é que quando viajo com os meus filhos já não sinto medo...

    ao ser exercida a liderança os medos se desvanecem pela responsabilidade para com os que o seguem, não?

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  2. Enquanto lia o texto, lembrei de muitas medos que tive de vencer, desde carta de condução, desafios ministeriais etc. Também percebi coisas que perdi por causa do medo, muitas vezes ainda luto com os medos, eu quero que neste ano de 2011, o medo não tenha vitória sobre a minha vida, quero aprender cada vez mais, a ser uma líder segundo o coração de Deus. :-) Vandair Coelho

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