5 de outubro de 2009

O Escândalo da Fé


Num tempo em que todos buscam um “sinal” ou “sabedoria”, qual o significado ou o papel da fé? Estamos escandalizados (e intimidados) com a razão ou estamos a escandalizar o mundo com a nossa fé?

Uma fé sem escândalo

Bernard Ramon disse: “O erro terrível da religião é o de tentar resolver os seus problemas com o uso da razão”. Eu acrescento: “só com a razão”. Para se tornar aceitável ao homem da “razão”, deve a fé tornar-se racional? Por outras palavras: devemos viver e pregar uma fé que todos compreendam e possam praticar?

A fé cristã é para todos. Mas nem todos a aceitam (II Tessalonicenses 3:2). E nada se pode fazer por eles, já que voluntariamente rejeitam a salvação, escolhendo a perdição.

Há, contudo, quem pense que o Cristianismo vem para agradar a gregos e a troianos. É a posição dos que cristianizam nações e não indivíduos (veja-se o exemplo de Portugal). Ora, nações não crêem. Uma fé sem escândalo adapta-se às conveniências de cada um, de modo a que possamos ter tantos “cristãos” e tão pouca fé cristã.

A fé que perdeu o sentido de escândalo, de crer contra a evidência, é tão mesquinha que nem merece a oposição do mundo, mundo esse que não pode suportar a genuína fé cristã. Escandaliza-se com ela. Mas a falsa fé dos “cristãos” é aceite por ele de bom grado. Ambos convivem pacificamente ao sabor das conveniências baseadas no “bom senso” e no “respeito” humanos.

À medida que o Cristianismo perde o sentido do escândalo, cai em descrédito. As pessoas só acreditam naquilo por que vale a pena dar a vida. E dar a vida é escândalo para a razão. Viver uma fé racional, protegida sob conceitos teológicos, filosóficos e práticas litúrgicas e comunitárias, por todos aceites, só leva o “cristão” a perder a identidade como autêntico continuador da obra de Cristo.

Um escândalo sem fé

Começámos por ver a posição perigosa de uma igreja que olha para o mundo sem fé e procura adaptar-se a ele. Agora, analisaremos a situação desse mundo, que tem a capacidade de escandalizar-se, mas não a de escandalizar pela prática da fé.

Jesus Cristo fez os cegos verem, os coxos e paralíticos andarem, os leprosos serem limpos, os surdos ouvirem, os possessos serem libertos e os mortos ressuscitarem. Aos pobres, anunciou-lhes o Evangelho. Depois de tudo isso, restava ainda a possibilidade da descrença, por parte de quem não aprendeu que os olhos são para ver e os ouvidos para ouvir.

Por isso, o Mestre disse: “Bem aventurado é aquele que não se escandalizar em mim” (Mateus 11:6). Bem aventurado é aquele que o aceita como o Filho de Deus. Bem aventurado é aquele que não olha só para a cruz, mas também para o túmulo vazio. Bem aventurado é aquele que acredita na “ressurreição e na vida”, a ponto de não aceitar que a morte O possa vencer.

Muitos porém escandalizam-se n’ Ele. Enganados pelas ilusões da mente, pensam que tudo o que não provém da razão é loucura. Pobres desses que pensam que a razão dá a última palavra em tudo na vida. Não dá. Quando ela silencia, é aí que a fé começa a falar.

Os gregos pedem “sabedoria” e os judeus “sinal”. Entretanto, o Evangelho não é uma coisa nem outra. É loucura, é escândalo. E não pode deixar de o ser para agradar ao homem. Se este não pode aceitar a “loucura” da pregação (que é a sabedoria de Deus), pior para ele. O máximo que o cristão pode fazer é afirmar: “Bem aventurado é aquele que não se escandaliza no Cristo vivo.”

Fé no escândalo

O mundo em que vivemos precisa, mais do que nunca, ser confrontado com o escândalo da autêntica fé cristã. Ele não crerá se lhe pregarmos um evangelho “racional”. O dom da salvação não pode ser dissecado e esterilizado pela razão. Só pode ser alcançado pelo “absurdo” de se crer naquilo que não se vê (Hebreus 11:1).

A fé no escândalo da fé, pressupõe a aceitação natural do crente, daqueles que zombam da sua fé, perseguindo-a ou acusando-a de impostura. Jesus Cristo passou por tudo isso, mas não abriu mão do escândalo. Sabia que Ele era a salvação da fé. De facto, uma fé pela qual não valha a pena pagar o preço de morrer para tudo, inclusive para a razão, não é fé.

Denominações religiosas sem conta, perderam a credibilidade por julgarem dispensável o escândalo da fé. A fé que muitos postulam, não escandaliza ninguém - todos a têm como racional, dentro dos limites, civilizada e apropriada a cada circunstância. Hora de igreja, igreja; Hora de pecado, pecado; Hora de idolatria, idolatria. Chega a hora de fazer ver os valores morais bíblicos ou de evangelizar, boca fechada, ou se a abrem deixam com a consciência coisas que não têm a ver com ela. Mas como não estão aqui para escandalizar ninguém com uma fé irreal num Cristo absurdo, o melhor é mesmo deixar as coisas assim.

A fé cristã autêntica, para muitos dos cristãos actuais, é escândalo e loucura.

Conclusão

Para um cristão nascido de novo, porém, é o dom da salvação divina.

Não existe uma luta intrínseca entre a razão e a fé. Para o cristão que as exercita de modo correcto, tanto uma como outra, são dons divinos. Ambas manifestam a revelação de Deus. A razão tem o seu tempo e hora – a fé o seu espaço e lugar. O homem que sabe usar correctamente a sua razão, compreende sem problemas o mistério da fé.

A grande tentação para o cristão é a de tornar racional a sua fé. Com isso nivela--a por baixo. Uma fé que todos possam compreender, inclusive os inimigos da cruz, é indigna daquele que deu a sua vida pelo homem perdido. Por isso, a genuína fé cristã, só o será se se pautar pelo estranho critério de perder para ganhar, de humilhar-se para ser exaltado, de morrer para viver. Isso é escândalo para a razão, mas salvação para todo aquele que comete o escândalo de crer.

17 comentários:

  1. Excelente texto.
    Pastor João, Obrigada!

    Tomei liberdade de retirar uma frase que me marcou deste seu texto sobre a Fé ( que tanto me cativa) e disponibilizei-a à minha família facebook. Espero que não se importe.

    Continuando a acompanhá.lo,
    Rute Alves

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  2. Bom artigo pastor...tenho notado que as pessoas estranham quando não se sentem escandalizadas com as posições dos cristãos...As pessoas sabem distinguir o que é verdadeira fé e o que não é. Quando é, elas sentem temor a Deus...podem escolher ignorar, mas conseguem distinguir...

    Bençãos!

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  3. Claro que não Rute! Quando escrevemos sempre pensamos em que se torne edificante para quem lê. Obrigado.
    João Cardoso

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  4. Excelente artigo Pst. João! Gostei muito mesmo!
    Que Deus continue a abençoa-lo ricamente com o Seu poder,
    graça e misericórida a cada dia...!
    Bjinhos grandes,
    Loide

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  5. Grande palavra!
    Infelizamente vivemos tempos em que damos primazia à razão, à lógica, aos debates e argumentos, e remetemos para segundo lugar a fé. Apetece citar, ainda que noutro contexto, Mateus 23:23 "deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas."

    Grande Abraço!

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  6. Mais que um artigo, palavra de Deus. Acho que estamos a precisar daquela fé que levanta "perseguição" e não aquela que se adapta em, argumentos labirínticos, às mentalidades reinantes. Fé que impressiona pela diferença e não pelas parecença. Causar escândalo, não daqueles a que temos sido habituados nos últimos anos, mas o escândalo de ferirmos os valores estabelecidos no sistema.

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  7. Verdadeiramente creio que a Igreja é mesmo chamada para marcar a diferença e não para se acomodar com este mundo (o seu sistema). Ou marcamos a diferença ou somos influenciados. Não há meio termo.

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  8. Já estive a ler, está muito bom, li há poucos dias um livro de Käsemann - Jesus Cristo é Liberdade - andáva à volta de viver um cristianismo centrado no escândalo da cruz, na realidade, a única vivência cristã válida..
    João Pedro Robalo

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  9. Creio verdadeiramente que o Espírito de Deus nos está a trazer de volta (voltar às origens)
    João Cardoso

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  10. ...concordo plenamente...
    António Pinto

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  11. Amigo João, é um prazer reencontrar-te aqui, já há muito que não nos vemos. Parabéns pelo teu Blog e pelo teu artigo.Mt bom. Um abraço

    José Manuel Tavares

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  12. "Creio verdadeiramente que o Espírito de Deus nos está a trazer de volta (voltar às origens)." João, só posso dizer Amén.
    André D. Lopes

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  13. João, só para dizer que o teu Blog está muito bom - e vai escrevendo sempre
    Carlos Cardoso

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  14. Olá João!
    Bom artigo... era fantástico que se dissessem ainda:
    "estes que teem alvoroçado o mundo, chegaram também aqui" (At 17:6).
    Obrigada.
    Um abração
    Cilinha Gonçalves

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  15. João
    Li o texto todo e gostei muito do que li. Disseste por outras palavras o que costumo dizer; a fé começa onde a razão acaba. Tenho um amigo que acredita em Deus e que Jesus veio ao mundo (só não sei bem fazer o quê, na perspectiva dele), mas não acredita que Jesus não fosse filho de José segundo a carne porque ele é crente em Deus, mas também é cientista e por isso, teve que haver intervenção de homem naquele nascimento. Infelizmente, é este tipo de "fé" que muitas vezes andamos a ver pelo meio dos cristãos; esses mesmos que querem minimizar o "estrago" feito pelo escândalo do evangelho. Por este prisma, muitas vezes a fé e a razão estão de lados opostos, não concordas? Para eu acreditar na concepção de Jesus no ventre da virgem Maria, só pela fé, não é? Pela razão, teria que concordar com o meu colega... Como esta, há muitas outras questões bíblicas que só pela fé é que lá chego; Com a "ajuda" da razão, não chego nem perto
    André D. Lopes

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  16. Verdade. Por vezes em lados opostos e só pela fé se recebe o que é "revelado". Muitas vezes as duas podem andar de mãos dadas mas creio que a maior parte das vezes, se usamos só a razão, está tudo estragado.
    João cardoso

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  17. Gostei muito.
    De facto, a nível prático, a verdadeira fé escandaliza a razão, mas sem deixar de ser razoável. Conheço ateus que me consideram louco por ser cristão; outros, agnósticos, respeitam a minha fé por achá-la razoável, racionável.

    “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.” (Salmos 19-1) Ao observar o mundo e o universo que nos rodeia, temos muitas razões para ter fé também. =)
    Este texto melhorou muito a minha maneira de pensar. Obrigado.

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